sexta-feira, outubro 20, 2006

Hoje...

Hoje mudei a rota. Saí do trabalho e não fui para casa.
Resolvi fazer o caminho de todos os Verões. Vim à praia. Sempre àquela praia.
Vim ver o mar. O mar… As saudades que eu tinha do mar.
Vim ver o sol. Vim a correr para não perder o lusco-fusco. E reparei que o pôr-do-sol mudou de sítio.
Vim ver o rio. O rio que também mudou a trajectória.
Vim ver as tontas das gaivotas, que fazem razia ao mar e desafiam as ondas. As ondas que rebentam de encontro às rochas com a força irada de como só o mar sabe amar.
Vim relembrar-me, redescobrir-me, abrir o baú e sacudir o pó à dor, que me corta a carne mais que a brisa gelada.
Vim arrepiar-me e aninhar-me a mim mesma; enterrar as mãos na areia e lavá-las na espuma do mar; desfazer-me em silêncio como a onda que se esvai.
Hoje não me vou descalçar, não quero descer à terra. Sou Natureza, mas hoje também sou egoísta.
Hoje vim deixar ao mar o sal de uma lágrima minha. Porque descobrir é bom, mas redescobrir é amar (-me).
Vim ouvir, vim sentir, este marulhar que me arrepia a alma.
E a noite cresce, ecoada no mar e na areia que agora deixo para trás.

19 de Outubro de 2006